18 de dezembro de 2017
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A tal moda plus size

Esta semana estava eu, passeando pelo Facebook, quando me deparei com um artigo falando da propaganda de roupa plus size da C&A – uma loja bem popular por aqui. Fast-fashion, aliás… com lançamentos a cada semana ou duas… enfim… A conversa rolou mais ou menos assim: Propaganda da C&A levanta questão:  que é plus size de verdade? 

E claro que o melhor (?) de tudo é ler os comentários. Seja no Facebook ou na página que saiu a matéria. Tem de tudo um pouco. Gente maior que a modelo da propaganda reclamando que não encontra roupa na loja; gente como a modelo que encontra; gente muito menor que a modelo reclamando que não encontra; gente muito menor que a modelo dizendo que encontra, mas na parte de roupa juvenil… e por aí vai. Foi um desfile de alturas, pesos e medidas, buscando talvez um senso comum para essa história toda. Inclusive, li um comentário de uma moça que trabalhou na C&A e esclareceu um pouco da política de compras das lojas para tamanhos muito grandes ou muito pequenos: eles encalham. Logo, a disposição de peças é muito menor. Achou, comprou porque senão, não acha mais.

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Muito bem. Eu não vou mentir que não fiquei com essa coisa toda na minha cabeça. Primeiro porque, se as tais peças não existem na loja, será que estamos falando de propaganda enganosa, ou simplesmente, elas foram vendidas e azar de quem não vai toda semana à loja conferir o cardápio? Segundo, o que é plus size? Terceiro, temos mesmo de recorrer ao fast fashion para poder vestir nossos corpinhos – seja de que tamanho sejam? Quarto, meus deuses, que inferno essa coisa de numeração de roupa e que inferno que estamos fazendo dentro de nossas próprias cabeças cismando com 38, 40, 42, 50? E por fim, quem é qualquer cara-pálida no Facebook para dizer: você é gorda, pare de comer, malhe e emagreça senão nunca vai encontrar roupa?

Aliás, preciso dizer: que coisa inacreditável a falta de educação que corre entre os comentários. De qualquer matéria, eu acho. Eu duvido que as pessoas tenham coragem de ser assim na vida real. Que se aproveitam de uma tela de retina para postar grosserias aos outros que discordam de seus pontos. Além de falta de interpretação de texto, como falta ética entre as pessoas para estabelecerem qualquer comunicação. Talvez resultado do universo de Fla x Flu, esquerda x direita que vivemos hoje em dia… Que pena de quem gostaria de um caminho do meio.

Infelizmente, no nosso mundo, lucra-se muito com as inseguranças das pessoas. Assim, esse “acolhimento” do plus size talvez seja uma forma espertinha de dizer: cara cliente, nos importamos com você. Bull shit. Nos importamos com o lucro que vem da sua insegurança, então venha gastar seu tempo e seu dinheiro em nossa loja – a qual não temos certeza de como os produtos são feitos, em quais condições trabalhistas, por exemplo – para achar que você vai se sentir linda e acolhida. Pode ser que a intenção seja ótima, mas como dizem, de boas intenções, o inferno está cheio. Ou seja, não existe uma preocupação genuína com as pessoas que vistam mais que 46 (que também é um número extremamente arbitrário). A preocupação é levar as pessoas para dentro da loja. E se não encontram uma peça que lhes sirva, quem sabe levem um sapato ou uma bolsa para compensar a frustração de não ficarem bem em nada. O que ainda não significa que o corpo da pessoa seja inadequado. De forma nenhuma. O caimento das roupas e o material que são feitos são extremamente duvidosos… Aposto 20 reais que as fotos feitas com as tais roupas de coleção foram muito bem tratados, muito obrigada. Mais do que isso ainda, o afã de “inclusão”só ajuda a criar um ciclo imenso de expectativa e frustração que, infelizmente, as pessoas tentam encher com mais e mais coisas, roupas etc.

Numeração de roupa. Não existe na vida algo mais pernicioso que isso. Faz-se acreditar que um número X cabe em pessoas de determinadas medidas. Oras bolas, quem tem exatamente um corpo igual ao outro? Isso quer dizer que essas roupinhas fast fashion são feitas de uma forma genérica, de acordo com uma modelagem, que segundo dizem ainda, vem de modelos chinesas – o que a brasileira tem de corpo chinês se não é descendente???? – e são exportadas para o mundo todo. É barato fazer na China, na Índia, em Bangladesh. O que mata, literalmente, é o custo disso para as pessoas empregadas nesse setor… Alguém sabe o que aconteceu com o Rana Plaza em 2013? Não??? Dá um Google e veja o quanto custou uma blusinha mequetrefe da Forever 21 para muitas famílias.

Meninas… meninos… pessoas. É sabido que no mundo da moda tudo se faz para manter o condomínio na praia de alguém. Ou o carro caro e os 80 empregados domésticos de um empresário de marcas gigantes. Eles investem na sua inadequação. No seu senso de não ser própria, linda e perfeita. Tentamos lidar com essas aceitações sociais de várias formas: cosméticos, roupas e cirurgias. No entanto, as únicas que pessoas que não estão enchendo as burras de dinheiro, são as pessoas normais como eu e você que podemos vestir 38 em uma loja e 42 em outra. Logo, seguem algumas ideias para, além de aliviar o consumo, o uso insano de recursos humanos e materiais, dar uma paz para a cabeça:

  • Não coloque seu dinheiro em fast fashion. É muito provável que o que você comprar hoje por modinha, vai durar pouco; seja pela qualidade do material, seja pelas tais tendências que mudam. Invista em peças de boa qualidade e que sirvam a diversas ocasiões e combinações. Menos é mais em quantidade. Podemos até gastar mais em algumas peças, porém garantimos o seu bom estado por muito tempo.
  • Resista firmemente a “retail therapy”, ou a terapia das compras. Não compre quando estiver triste demais ou alegre demais. O seu cartão e seu armário agradecem.
  • Conheça seu corpo. Pesquise, entre no seu guarda-roupa e veja o que lhe cai bem. Nada mais, nada menos.
  • Quando numa loja, não peça um número específico. Nós não temos a menor ideia de como é a modelagem daquela empresa. Quando me perguntam números, eu sempre digo: não sei, me diz você, para a vendedora. Ela sabe o que tem lá e pode ajudar. E se a numeração não for do seu agrado, de duas, uma: ou saia sumariamente da loja OU corte a etiqueta quando chegar em casa. Um número não pode ditar seu estado de espírito.

Ganhar etiquetas como plus size, que eu mesma já ganhei, ou roupa juvenil é querer andar com uma etiqueta. Elas não fazem NADA por você. É você quem faz. As escolhas são suas. O dinheiro é seu. As mudanças de estilo de vida ou de roupas igualmente. Logo, não se deixe ditar o que fazer.

Tathy

Sobre Tathy Morselli

Tathy Morselli
Tathy é professora, escritora e tradutora. Estudou Pedagogia e fez pós-graduação em Estudos Literários. Tem uma biblioteca razoável, um Kindle debaixo do braço e sempre uma câmera na mão. Acredita que desassossegar as pessoas leva a visões e pensamentos mais profundos sobre o mundo que nos cerca.

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One comment

  1. Querida, Thaty.
    Ninguém comenta o absurdo do tamanho 36 ou 34 para adultas num país miscigenado como o nosso, em que o diferente é justamente o 46, 48 e afins, por falta total de aceitação de quem somos, com nossa cultura e descendências. Se fosse realmente pensado a uma maioria, de mulheres adultas, os tamanhos seriam diferentes, e importaria que a marca entrasse nos corpinhos, não que nossos corpos se adequassem para entrar na roupas deles. Nos acostumamos tanto a sentir vergonha, covardia, desconcerto que assumir o 46 é um problema. Pessoalmente, quando se trata de controlarem o quanto comemos perguntando “nossa, tudo isso? e a dieta?” já começa a tal pressão e mesmo que se fale de uma tal moda plus size (que certamente não é essa da foto C&A) a beleza continua a velha magreza, ou ser sarada, ser saudável… Nada contra ou a favor da busca por beleza, mas sim da falta de escolha, pois causamos um belo incomodo quando escolhemos o diferente, agressivo, há toda uma conceituação simbólica por trás dessa beleza/feiura na comédia, no que é sexy ou não, sem falar na pura demagogia hipócrita da marca, que não tem nada além de 48 (pois quando tem é 46 e olhe lá…)

    adorei a análise, parabéns pelo trabalho
    abraços

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