20 de novembro de 2017
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Amar José Saramago

 

Alguns dos tantos que Saramago escreveu.
Alguns dos tantos que Saramago escreveu.

Por que José Saramago é tão importante? Apaixonante? Polêmico, para dizer o mínimo? Porque o homem escrevia para fazer pensar.

Tudo começa com seu estilo. Criado, claro está, ao longo de sua carreira como escritor. Que se inicia com sua formação jornalística. Aos 60 anos, Saramago foi demitido de seu emprego e resolveu colocar seus pensamentos na folha. Não aquela que informa, mas aquela que além dos pensamentos, carrega arte. A sua escrita e estilo únicos renderam à língua portuguesa seu único prêmio Nobel – 1998. Irretocável. Houve quem disse que ele deveria ter uma cara feia para escrever coisas tão feias – crítica feita por uma leitora frente a “Evangelho segundo Jesus Cristo”.

Comunista. Ateu. Pessoa non-grata em Portugal quase até sua morte. Aos poucos, foi reconquistando a “confiança” (?) do governo português. Hoje, em Lisboa, está descansando, em cinzas, na Casa dos Bicos, que abriga a Fundação Saramago.

Inspirado por Fernando Pessoa e Jorge Luiz Borges, José era um neto de camponês. Um que viu as dificuldades da zona rural e por meio desse sofrimento lançou “Levantado do Chão”, em 1980, quando seu nome passou a ser sinônimo de boa escrita portuguesa. Não parou de produzir até bem perto de sua morte, em 2010, quando nos deixou os primeiros capítulos de “Alabardas, alabardas”, publicado no Brasil em 2014 pela Cia. das Letras.

José Saramago dizia que escrevia para desassossegar as pessoas. E quem conhece a sua obra ou, sem querer, esbarra em um de seus livros, acaba percebendo. Suas histórias, beirando o fantástico, como em “As intermitências da morte” ou “O homem duplicado”, ou falando de terras hipotéticas de situações sociais e políticas sensíveis, como em “Ensaio sobre a Lucidez”, consegue-se perceber um chamado para pensar e procurar entender o por quê das coisas serem como são.

Como leitora assídua de suas obras, sofri com os cegos de “Ensaio sobre a cegueira”, chorei quando o elefante Salomão chegou a Viena, em “Viagem do elefante” e sonhei com o centauro, conto do livro “Objecto quase”. Sempre que tenho oportunidade, leio para uma criança o conto “A maior flor do mundo” e acredito que sim, se a leitura para crianças fosse obrigatória para os adultos, quem sabe, não saberíamos melhor?

Saramago não vai escrever mais livros. Mas, sua obra extensa e premiada nos deixa um risco do que a mente genial pode ser. Talvez não por ideias revolucionárias ou intocáveis, mas pela profundidade e sensibilidade que elas trazem. Saramago era um homem da terra, não acreditava em céu, em inferno. Sabia que as nossas dificuldades como seres humanos estavam aqui mesmo, no chão onde pisamos, na paisagem que vivemos.

Saramago não está morto, disse certa vez o moçambicano Mia Couto. Vive em cada uma de suas palavras. Em seus personagens. Uma parte de si, em cada mulher maravilhosa que nos presenteou em suas obras. Uma mais linda que a outra, Madalena, a mulher do médico, Blimunda – e imagino que Felicia seguia para o mesmo caminho.

Não digo que se trata de uma leitura difícil, como Proust ou Joyce. É uma escrita que faz pensar e que não te deixa largar as páginas por desejar saber o que mais pode sair dali. Como as pessoas vão se resolver em suas questões. Quem são essas pessoas que, muitas vezes, nem tem nome. É, de fato, uma leitura a ser tentada. Para os nativos da língua portuguesa, necessária. Comece dos best-sellers “Caim” ou “Ensaio sobre a cegueira”. Passe aos mais antigos, “Memorial do convento” ou “Levantado do chão”. Experimente “Claraboia”, escrito antes de Saramago ser Saramago. Viva entre as pessoas que votam em branco em “Ensaio sobre a lucidez”. Viaje à Portugal – “Viagem a Portugal”.

De tudo, não seja indiferente. Ele nunca permitiu isso… não é possível ser indiferente à sua obra. Amor ou ódio. Indiferença, nunca.

Por fim, amo José Saramago por tudo que ele te faz puxar e viver como um ser humano, entre tantos outros.

“(…) o tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó, o tempo é uma superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar”. 

José Saramago,  “O  evangelho segundo Jesus  Cristo”, 2005

Lembremos Saramago que morreu, mas não foi ao céu. Ficou na terra, pois a ela pertencia.

Tathy

Sobre Tathy Morselli

Tathy Morselli
Tathy é professora, escritora e tradutora. Estudou Pedagogia e fez pós-graduação em Estudos Literários. Tem uma biblioteca razoável, um Kindle debaixo do braço e sempre uma câmera na mão. Acredita que desassossegar as pessoas leva a visões e pensamentos mais profundos sobre o mundo que nos cerca.

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