21 de janeiro de 2018
Home | CULTURA POP | Literatura | Das possibilidades que a Literatura nos oferece

Das possibilidades que a Literatura nos oferece

Não é segredo que eu sou assinante da TAG Livros, um clube de assinaturas de livros que manda uma obra curada por um artista, pensador, professor, intelectual, escritor etc – se você quiser ser também, clique aqui!

Este mês, o livro que chegou chama-se A balada de Adam Henry, de Ian McEwan. Uma obra com uma narrativa simples, mas que mostra o cotidiano de uma juíza que precisa lidar com uma crise pessoal, começando a sua meia-idade, com casos sensíveis: ela trabalha na vara de família do judiciário londrino. Assim, lida com divórcios, pensões, guarda de crianças, orientações para filhos e, o caso mais marcante do livro: sentenciar se um hospital poderá ou não fazer uma transfusão de sangue a um paciente, menor de idade, testemunha de Jeová.

IMG_0216

Não vou entrar em muitos detalhes sobre o livro, para não gerar spoilers, porém, comentários de quem o leu serão bem-vindos.

O que vem me prendido a esta leitura é como a Literatura nos oferece chances de viver outras vidas. A Arte, com sua aspiração de mover as emoções e oferecer a cada espectador uma sensação única, abre portas para catarses que não imaginávamos precisar viver.

Eu não sou juíza. E, lendo o livro, penso que não gostaria de ser, porque eu fico pensando no quanto de nosso foro íntimo entraria nas decisões a serem tomadas. Claro que sempre é um caso de agir dentro da lei ou buscar resguardar aquele que está em uma situação mais delicada, porém, eu fico pensando sobre o peso que determinadas situações podem colocar sobre nossos ombros. Se é assim conosco, no cotidiano, imagina na vida alheia.

De qualquer forma, eu sou educadora e vejo diariamente casos de família que me arrepiam. Divórcios complicados que geram ansiedade e expectativas sobre crianças; famílias que desejam que crianças de três anos superem coisas que mal compreendem; crianças criadas e cuidadas pelas babás; maus-tratos; abusos… E, na minha cabeça, penso e repenso muitas vezes o que eu posso fazer como professora para atenuar ou ajudar a criança a lidar com aquilo. Como, por vezes, eu – e outros professores – precisamos agir como advogados das crianças para que seus interesses sejam observados e não apenas a vontade dos pais. Não que eu ache que se façam coisas visando o mal do aluno – ou pelo menos, espero que não – no entanto, os professores deveriam ser ouvidos como médicos ou advogados mesmo, pois são conhecedores de questões, técnicas e histórias que saem da alçada da família. Conhecemos as crianças em seus momentos e movimentos públicos… a família, em seus momentos e movimentos privados.

O que eu quero dizer com tudo isso é que ler livros nos leva a lugares, tempos e vidas que não são as nossas e que não podem ser, por conta do que somos e do que vivemos. Quando lemos uma história passada na Segunda Grande Guerra, por exemplo, muitos de nós não estava vivo para testemunhar… ou, não estava na Europa para passar pelo ocorrido; no entanto, os relatos dados pelas histórias contadas nos romances, mostram facetas e acontecimentos das pessoas comuns que não poderíamos imaginar se não fossem por aquelas linhas. Ganhamos empatia com outras pessoas e enriquecemos sim a nossa experiência de vida.

Não é à toa que pessoas se apaixonam por personagens – Ah, mr. Darcy – ou por mundos de fantasia como Hogwarts, Nárnia ou a Terra Média. Elas trazem para nós, pessoas comuns, momentos extraordinários e enriquecem nossa imaginação e, quiçá, nossa perspectiva sobre o mundo no qual vivemos. Ainda, as palavras de um escritor podem nos arrebatar de uma forma tal que reforma nossa forma de encarar a realidade.

A balada de Adam Henry ainda não me pegou nesse supetão, como pegou Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago ou 1984, de George Orwell. Porém, vem me colocado na pele de uma pessoa que eu não sou, não serei, mas que tem uma história sensível para ser contada e, ao mesmo tempo, ecoa comigo pelo tipo de situação que ela precisa lidar.

Isso é a boa Literatura. Ela abre portas para nos enxergarmos no que não é a nossa realidade.

A BALADA DE ADAM HENRY, Ian McEwan – Cia. das Letras, 2014

Tathy

Sobre Tathy Morselli

Tathy Morselli
Tathy é professora, escritora e tradutora. Estudou Pedagogia e fez pós-graduação em Estudos Literários. Tem uma biblioteca razoável, um Kindle debaixo do braço e sempre uma câmera na mão. Acredita que desassossegar as pessoas leva a visões e pensamentos mais profundos sobre o mundo que nos cerca.

Check Also

Criolo no Cinema [Vídeo-Entrevista]

  Criolo é um grande músico, seus álbuns de uns anos pra cá tem feito ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *