18 de dezembro de 2017
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Dialogando com sistema de educação

 

É sabida já a confusão que a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo fez com a tal “reorganização” das escolas. Isso deu muito buxixo e bafafá. Alunos tomaram suas escolas e foram muito pontuais no que desejam: continuar em suas instituições de ensino. Não querem mudar. Não querem sair. Não querem permitir que elas sejam fechadas. Muito justo. Muito digno, afinal, não passamos anos e anos dizendo que desejamos alunos para tornarem-se seres críticos e pensantes? Esses pensamentos tornaram-se atos. E estão fazendo o que acreditam que tem de fazer.

Ato 2. Vem o secretário de Educação, o sr. Herman Voorwald e diz que a tomada das escolas tem de terminar. Que trata-se de um processo democrático e que a reestruturação visa o melhor dos alunos. Que haverá um diálogo, claro. Mas, que queiram os alunos ou não ela VAI acontecer.

Pergunto: ONDE, cara pálida, está o diálogo? Onde está a democracia? O que a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo está fazendo é meramente perpetuar um sistema de ensino (e social, diga-se de passagem) que é verticalizado, no qual as políticas públicas só são públicas porque as pessoas tomam conhecimento delas e não porque participam delas.

Eu sinceramente fico imaginando o que não tem por trás de tudo isso? Os cargos de confiança que serão gerados, as pessoas sem concurso que estarão atuando… O secretário não fez o que fez porque é bonzinho e pensa na ação pedagógica das escolas. Se pensasse não fecharia escolas. As manteria para que as salas de aula se desafogassem, no mínimo. Para que os professores tivessem o tempo necessário para fazer toda sua ação educativa e formadora acontecer – como eu já disse em um texto anterior, o ato do docente não se encerra no entrar e sair da sala de aula.

Se a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo quisesse de fato uma reforma… Se o Mistério da Educação quisesse uma reforma, teria, para começar, de olhar para quem são as pessoas que os gerem. Insisto no ponto do texto anterior: o que um reitor sabe sobre Ensino Fundamental do Ciclo 2? O que sabe o nosso Ministro da Educação – que também não é um educador – sobre Ensino Básico? Que ele deve acontecer? Que é dever do Estado? Isso está posto desde a primeira Constituição do Brasil, 1824. E o que aconteceu de lá até aqui?

foto: Estadão Conteúdo

Evidentemente houveram medidas, melhorias… e isso foi também um movimento do tempo e das pessoas. A Educação interessa a todos. Talvez não aos burocratas… como os reitores, ministros e secretários.

Alunos bem educados são sim cumpridores de suas obrigações porque as compreendem. Do que vale fazer algo imposto da qual pouco se sabe? Por que fazer algo que não se entende?

Nosso mundo é sim feito de uma infinitude de burocracias. O sentido das coisas se perdem nelas.

Precisamos de um verdadeiro levante pela Educação. Por uma que permita que as pessoas pensem e entendam que nosso sistema educacional hoje, seja público, seja privado, é comprometido com a validação, com a competição e com a exclusão daqueles que não se encaixam. Aquele que sai da forma é um defeituoso. O jeito que as coisas são feitas hoje servem apenas para formar uma imensa massa de manobra que permite que acreditemos que temos liberdades individuais e escolhas. Não as temos. Somos compelidos há longas horas de trabalho, ouvir o que o mercado diz que temos de ouvir, ler o que o mercado diz que temos de ler… O pensamento fica chato e raso.

Professores comprometidos existem. São muitos. E fazem de suas salas de aula espaços de pensamento e reflexão. No entanto, se estamos falando de um status quo de 30 alunos por sala, quem sabe apenas 10 estão de fato refletindo porque a realidade nos fere de alguma maneira?

A função da escola é formar pessoas sensíveis aos passos da humanidade. Seu conhecimento construído. Suas Artes manifestas. O verdadeiro ato de educar incomoda quem aprende, pois é a chance de sair do casulo e perceber o que mais há em volta. E o mundo é grande. A humanidade é imensa. E expressa-se de tantas formas quanto existem pessoas, línguas, pensamentos e culturas. Por que achar então que apenas vale o fim de semana quando pode-se ouvir a tal música do momento?

Aquelas jovens pessoas que tomaram as suas escolas o fizeram por uma escolha. Talvez que tenha sido ensinada na escola, talvez em suas casas. O que eles querem além de suas escolas? O que querem professores além de formação e reconhecimento?

Acreditem, srs. Mercadante e Voorwald, se os senhores estão onde estão é porque um dia, uma professora ou um professor do Ensino Básico os ensinou a ler e a fazer contas… Por que não podemos dar essa oportunidade real a todos?

Tathy, sou docente e não desisto nunca.

Sobre Tathy Morselli

Tathy Morselli
Tathy é professora, escritora e tradutora. Estudou Pedagogia e fez pós-graduação em Estudos Literários. Tem uma biblioteca razoável, um Kindle debaixo do braço e sempre uma câmera na mão. Acredita que desassossegar as pessoas leva a visões e pensamentos mais profundos sobre o mundo que nos cerca.

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