20 de novembro de 2017
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Escolas fechando… oi?

A notícia de que o estado de São Paulo iria fechar escolas, ou melhor, remanejar alunos pelas suas faixas-etárias criou muita polêmica. E ainda cria. Algumas escolas estaduais tradicionais estão correndo esse risco como a andreense “Américo Brasiliense”. Muitos protestos aconteceram, entre pais, professores e alunos, contra essa medida.

Bom, não é a primeira vez que uma atitude da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo gera tanto movimento. Em 1996, por exemplo, a passagem do 2o. grau para o Ensino Médio, matou os cursos técnicos, fazendo com que os alunos precisassem cursar o EM regular e o técnico em um contra período. O Ensino Técnico foi uma saída dada pelas secretarias, na época da ditadura (1964 – 1985), para garantir mão de obra especializada no Brasil, mas evitando que os jovens tivessem acesso ao Ensino Superior. A questão é que a coisa foi passando, passando e quando os adolescentes resolviam fazer os cursos, já na década de 1990,  era para prepararem-se para a faculdade, porém foi a época em que os cursos foram modificados. Essa que vos escreve foi uma das últimas a fazer esse tipo de curso e tê-lo válido como Ensino Médio. A ideia não era de todo ruim, afinal de contas, queria garantir que, além de uma profissão, os alunos do EM ficassem mais tempo nas escolas, garantindo mais sucesso escolar e menos tempo ocioso. Como sabemos, não funcionou. O sucesso escolar no EM continua discutível. O que talvez passe um pano por cima disso, hoje em dia, seja o ENEM, que quando foi criando também gerou suas questões.

Muito bem. E o que quer a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo com seu remanejamento de alunos? Que as administrações escolares estejam mais focadas em suas faixas-etárias – Ensino Fundamental, ciclo 2 (6o. ao 9o. ano) e Ensino Médio. O secretário de Educação, Herman Voodward, foi a diversos veículos da imprensa para esclarecer possíveis dúvidas e como funciona esse novo sistema. Uma crítica pessoal a essa coisa toda é que Woodward não é educador. Ele é graduado em Engenharia e seu trabalho foi basicamente em instituições superiores voltadas a tecnologia e ciências. Acredito, como educadora, que seja mister que, para conhecer essencialmente como o EM e o EF2 funciona, é preciso estar dentro desse trabalho. O trabalho desenvolvido em ilhas de excelência ou pesquisa como o ITA ou a FEG (Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá), onde o secretario formou-se e trabalhou, não oferecem o olhar que se deve ter para as faixas-etárias mais jovens ou menos instruídas para, inclusive, fazer parte dessas instituições. Nosso secretário deveria, minimamente, ter uma graduação em Licenciatura. PLENA. Ser pedagogo. Políticas públicas, as leis conseguimos aprender se lermos a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, 9294/96, mas a “tarimba” vem da prática com as faixas-etárias em questão. Penso o que um reitor sabe sobre o oitavo ano verdadeiramente.

Enquanto a Educação mais valorizada e validada for a Superior – e não estou dizendo de forma alguma que ela não é importante, ela é parte da formação BÁSICA de qualquer indivíduo – teremos problemas. Infelizmente, a Educação Infantil não é entendida como o ponto base da formação do cidadão. É apenas um lugar para que as crianças pequenas fiquem enquanto os pais trabalham. O Ensino Fundamental “não é mais que a obrigação”, afinal de contas, “se não estudar, não vai ser ninguém” e muitos empregos exigem apenas o Fundamental completo. O Ensino Médio é a preparação para a universidade. E as coisas de verdade, são feitas no Ensino Superior, que ensina pouco, pois só se vê a realidade de uma profissão na prática. Pois bem… toda a Educação, em nosso país, em nossa cultura, são sumariamente ignoradas. Se bons sistemas de ensino fossem proporcionados, os alunos seriam donos de seus conhecimentos acadêmicos e, certamente, teriam sucesso em seus ciclos.

Fechar escolas ou remanejar alunos sob a desculpa de que a população acadêmica – sim, todos os níveis de educação são ambientes acadêmicos – está diminuindo é um insulto à inteligência das pessoas. Existem sim crianças e jovens que precisam dessas salas. Professores abarrotados por horas/aula intermináveis que precisam de salas menores para poderem dar atenção devida aos seus alunos. Aliás, isso inclusive no ensino privado. A convivência entre faixas-etárias diferentes seria importante para que se aprenda a lidar com todos os atores do mundo escolar.

Se já sofremos de uma diminuição da população escolar, fechar escolas próximas aos alunos, não os afastaria mais? Sim, mas a Secretaria de Educação diz que as novas salas de aula estarão a apenas 1,5km de distância das salas originais. E os colegas que já moram a 2, 3 ou 4 km de suas escolas?

escolas

Uma reforma no ensino público demanda tempo. Quem conhece um pouco dos processos russo, canadense e finlandês sabe que a coisa não foi feita da noite para o dia. Foram quase 10 anos até que a coisa funcionasse como deveria. E o que temos hoje? Educação Pública de excelência.

Não pretendo de forma alguma ser idealista no que se refere a Educação Brasileira, pois sabemos como a banda toca por aqui. Mas, que possamos garantir minimamente que os alunos tenham aulas. Que os professores tenham condições de trabalho. Quarenta horas/aula por semana EM SALA DE AULA prende o professor em suas atividades de planejamento e avaliação. O trabalho do docente não se encerra entrando e saindo da sala. Existem documentos a serem preenchidos, avaliações a serem feitas e novos conteúdos a serem desenhados para que os alunos, na idade que tenham, não percam a maravilha da curiosidade, para que sejam instigados a estudarem o que lhes interessa.

A chave para uma boa educação é permitir que nenhum dos atores desse palco se prendam em burocracias e cargas horárias, mas que se incitem a saber mais. Ir além do que é oferecido. Isso começa na Educação Infantil e morre no Ensino Fundamental, onde uma criança pode tornar-se um analfabeto funcional e não compreender o que está sendo posto a sua frente, deixando com que o vento a eduque e seu interesse nele se esvaneça.

Precisamos de mais salas de aulas. Mais professores. Cargas horárias humanas. Um sistema de avaliação que não pontue um aluno por aquilo que ele NÃO sabe. Talvez, precisemos começar do zero.

Tathy

Sobre Tathy Morselli

Tathy Morselli
Tathy é professora, escritora e tradutora. Estudou Pedagogia e fez pós-graduação em Estudos Literários. Tem uma biblioteca razoável, um Kindle debaixo do braço e sempre uma câmera na mão. Acredita que desassossegar as pessoas leva a visões e pensamentos mais profundos sobre o mundo que nos cerca.

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