25 de novembro de 2017
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HQ: Gays nos quadrinhos

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Recentemente, tem se dado muita atenção ao tema homossexualidade nos quadrinhos.

Vamos direto aos fatos:

  1. As histórias em quadrinhos são uma mídia historicamente social progressiva.
  2. Nas últimas décadas, a influência menor do Comics Code Authority (O “Código dos Quadrinhos”, criado pelas editoras como uma forma de autocensura no conteúdo dos quadrinhos americanos) e do livro Sedução dos Inocentes permitem histórias mais realistas.
  3. Nos anos 70, os quadrinhos costumavam abordar problemas sociais como uso de drogas. Agora, o foco são situações como o casamento igualitário.

UMA BREVE HISTÓRIA NO TEMPO…

A discussão da homossexualidade nas HQs é tão antiga quanto os próprios quadrinhos. Na verdade, a história dos quadrinhos em si foi toda moldada pelo mero pensamento de que um personagem de HQ poderia ser assumidamente gay em suas páginas. O Dr. Frederick Wertham publicou o Sedução dos Inocentes em 1954, que questionava que a violência e erotismo retratados nas páginas dos gibis poderia corromper as crianças e o jovens. Neste livro há inclusive uma discussão em torno dos personagens Batman e Robin e sua relação, além de acusações de que a Mulher Maravilha seria nada mais que uma incitação à fantasias sexuais proibidas. A ideia de um cavalheiro criar um adolescente era vista como… digamos, assim… gay. Mais especificamente havia o medo de que uma relação que poderia ser também interpretada como a de pai e filho (ou de irmão mais velho e irmão mais novo) pudesse ser também vista pelos leitores como uma união homossexual, e que isso os incentivasse a assumir tal comportamento.

Selo do Comics Code Authority.
Selo do Comics Code Authority.

Os pais estavam horrorizados com a possibilidade de seus filhos se tornarem gays ao lerem quadrinhos de super heróis. O Congresso americano acabou tomando uma decisão, influenciado pelo clamor moralista insuflado pelo psiquiatra Fredric Wertham: recomendou que fosse criada a Associação Americana de Revistas em Quadrinhos, que seria responsável por fiscalizar se a produção de editoras como Marvel e DC estavam respeitando o Código dos Quadrinhos. Isso nada mais era que censura pura. As editoras deveriam submeter suas histórias à aprovação, e aquelas que se enquadravam ao Código recebiam um selo específico, indicando as pais que o conteúdo daquela HQ era “seguro”.

Além de regras específicas quanto ao uso excessivo de relações sexuais, ou perversões sexuais (leia-se homossexualidade, no entendimento deles), o Código tinha diversas outras regras sobre como as HQs deveriam ser lidas e retratadas. Tinha inclusive regras que impediam os vilões de vencerem, por exemplo, ou de mostrar autoridades públicas como juízes e policiais de maneira negativa. Outras regras proibiam mostrar vampiros, lobisomens ou zumbis. Isso levou muitas companhias a falirem (especialmente as que produziam exclusivamente quadrinhos de terror).

HQs de terror não tinha vez com o Código dos Quadrinhos.
HQs de terror não tinha vez com o Código dos Quadrinhos.

Nós sabemos que na prática, essa situação era ridícula, já que uma pessoa não “aprende” a ser gay lendo uma HQ. Com o passar do tempo, o Código dos Quadrinhos foi perdendo força, e a aceitação dos americanos para com os gays e lésbicas aumentou. E isso nos levou aos quadrinhos como eles são hoje.

ESTRELA POLAR

Quando esse herói da Marvel surgiu, ele era apenas mais um personagem com um uniforme de gosto duvidoso. Tudo o que se sabia sobre sua vida pessoal era que ele era muito próximo de sua irmã. Não havia nenhum rumor sobre ele ser gay ou não. Seu criador, John Byrne, sempre teve em sua mente a ideia de retratar esse personagem como gay, mas o editor chefe da época, Jim Shooter, proibiu. Byrne e outros escritores, então, colocavam referências sutis na HQ Alpha Flight ( Tropa Alfa, grupo ao qual Estrela Polar fazia parte) indicando que ele era homossexual.

Em 1992, na edição americana nº 106 da Alpha Flight, o escritor Scott Lobdell teve permissão para fazer Estrela Polar dar uma pequena declaração ao mundo:

Tradução: "Embora eu não costume discutir minha sexualidade com pessoas que não tem nada a ver com isso... eu sou gay."
Tradução: “Embora eu não costume discutir minha sexualidade com pessoas que não tem nada a ver com isso… eu sou gay.”

Por quase um mês, as pessoas prestaram atenção no Estrela Polar. O mundo tinha, finalmente, seu primeiro super herói gay. No final, Estrela Polar acabou até mesmo se casando com seu namorado de longa data, Kyle, em um evento digno de capa na revista dos X-Men.
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Essa edição chamou muita atenção, tendo recebido matérias de diversos veículos no mundo todo. Isso também causou a ira do grupo One Million Moms (Um Milhão de Mães, uma associação que preza pela família americana ‘tradicional’, criada no Mississippi). Em algum lugar, o fantasma de Frederick Wertham deve estar dizendo “Viu! Foi por isso que escrevi meu livro em 1954!”

OUTROS PERSONAGENS

Mas nem só no universo Marvel os gays tem espaço. Em 2010, os quadrinhos de Archie introduziram um novo amigo: Kevin Keller. Kevin não era controverso somente por ser abertamente gay, mas também por ser um soldado do Exército. Kevin também acabou se casando em Life With Archie nº 16.

Além disso, podemos citar também personagens como a Batwoman, e até um Lanterna Verde. Aliás, um não, “O” Lanterna Verde, já que se trata de Alan Scott, o Lanterna Verde original.

Batwoman, e Alan Scott, o Lanterna Verde original.
Batwoman, e Alan Scott, o Lanterna Verde original.

E estes são apenas alguns poucos exemplos. Podemos citar também o Questão (da DC), Danielle Baptiste (da Top Cow), além de Shatterstar, Wiccano e Hulkling (também da Marvel). Felizmente, estamos vivendo em um mundo onde o amor está se tornando mais importante que o gênero ou a orientação sexual das pessoas (bom, contanto que você ignore países como a Rússia ou estados como o Kansas…). Todos esses personagens ajudaram e ajudam a tornar o mundo de fantasia dos super heróis mais realista e próximo do nosso cotidiano, ao adicionar mais diversidade em suas páginas.

Sobre Bruno Auriema

Bruno Auriema
Ilustrador, publicitário e gamer nas horas vagas, além de fã e desenhista de HQs. Já publicou duas graphic novels no Brasil, além de alguns trabalhos nos Estados Unidos. No ramo dos games gosta de jogos de luta, ação e estratégia, mas tem mesmo uma queda pelos clássicos dos arcades dos anos 80 e 90. Já quando o assunto é HQs, gosta de quadrinhos alternativos e acompanha com muito interesse o que é produzido no Brasil.

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