23 de outubro de 2017
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O dito cujo “rosa”

A escola não é e não pode tornar-se um local de senso comum. De bom senso, sim. Mas, nunca de senso comum. A escola, o ambiente acadêmico, serve para que aprendamos, principalmente a pensar. Afinal de contas, o conteúdo secular/ curricular existe, está aí, sempre esteve e, sinceramente duvido que mude – seria necessário uma tremenda mexida nas bases curriculares e didáticas da Educação para que se transforme, e não vejo isso acontecendo em breve.

Assim, a escola, como posto anteriormente, é um local de aprender a pensar, questionar, refletir. Sair do senso comum que é empurrado goela a baixo das pessoas e compreender o que existe por trás das coisas, do mundo, para que possamos atuar nele de forma autêntica.

Uma das questões mais reproduzidas na escola, via família ou via de regra mesmo, é a caracterização de gêneros. Meninos e meninas. O que pode, o que não pode… E o que poderia ser. Não é incomum encontrarmos em materiais didáticos os papeis de gênero estereotipados… Aliás, não só os de gênero, mas é a ele que eu quero me ater neste texto.

Semana passada, numa conversa entre duas meninas de 3 anos, havia uma disputa: quem era mais menina por gostar mais de rosa. E a perseguição pela dita cuja da cor tornou-se um movimento quase obsessivo na sala de aula que pediu uma mediação sensível das professoras.

A nossa primeira ação foi eliminar o rosa nos brinquedos… ou pelo menos naqueles cuja uma única peça era rosa. Desta forma, favorecemos a aproximação das meninas a outras cores e o entendimento que não é a cor que faz a função social do brinquedo. E aos poucos, fomos devolvendo as peças rosa, de forma que pudessem, além de compartilhar entre todas elas, misturar o rosa ao resto das cores brincáveis e ajudá-las a perceber que não é a cor que faz delas meninas ou meninos.

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No entanto, é dada a massiva presença dessa cor naquilo que se relaciona a “meninas”. Roupas, sapatos, brinquedos, materiais escolares e milhares de acessórios. Eu fico imaginando quando se convencionou que “rosa é cor de menina”. Mas, independentemente de quando isso aconteceu, a questão é que isso está colocado na cabeça das pessoas que é quase como se fosse natural. E não é. Muito menos é a competição de quem tem mais coisas rosa, de quem gosta mais de rosa, de quem é mais menina porque gosta mais da cor.

A escola forma para o mundo. No mundo, não há só rosa. E esta metáfora da cor vale para tantas outras coisas. De fato, a família tem todo o direito de fazer como acha adequado. No entanto, no mundo a fora, as crianças hão de encontrar todos os jeitos de todas as outras famílias. Então, por que não aproveitar a oportunidade para mostrar os tantos outros jeitos de tantas outras coisas? Multiplicidade de pensamento e de fazeres.

Pode ser sim que “sob meu teto, minhas regras”. Na verdade, se espera que seja assim. Porém, quantos outros fazeres não encontramos quando nos aventuramos pelo mundo? Este é o papel da escola: mostrar que o nosso tempo e o nosso espaço é feito de muitas possibilidades.

Tathy

Sobre Tathy Morselli

Tathy Morselli
Tathy é professora, escritora e tradutora. Estudou Pedagogia e fez pós-graduação em Estudos Literários. Tem uma biblioteca razoável, um Kindle debaixo do braço e sempre uma câmera na mão. Acredita que desassossegar as pessoas leva a visões e pensamentos mais profundos sobre o mundo que nos cerca.

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