18 de janeiro de 2018
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O idealismo nosso de cada dia

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Um dia fui um torcedor organizado e até hoje não sei o que me levou até lá. Talvez o meu desejo, há oito anos, era apenas estar mais próximo do meu clube. Talvez quisesse pertencer a um grupo de pessoas com pensamentos parecidos com o meus. Quando se tem 17 anos, raramente pensamos duas vezes antes de tomar uma decisão. Aliás, raramente pensamos aos 17. O que move um jovem que se mete numa entidade, seja ela esportiva ou não, é o idealismo. O que acontecerá no futuro é fruto de uma série de variáveis que ninguém que está de fora do contexto poderá entender.

Quando entrei na sede da torcida não sabia como seria a minha relação com ela dali para frente. Entretanto, sabia que todo aquele mundo era maior do que eu e meu ego de adolescente. Sabia que ali existia uma história e uma tradição que não se apaga. Apesar da minha imaturidade, entendia que aquele mundo não dependia de uma pessoa apenas. Eu era um pivete em meio aos dragões.

O tempo foi passando a minha relação com os demais sócios, quase todos com a mesma idade que eu, se tornou mais amena, mas longe de ser amistosa. Quando um moleque de 17 anos veste uma “farda” é natural que o espirito se arme. Não por maldade ou por necessidade. Mas aos 17 anos temos a ideia de que fazer cara de mal é a única forma de ser contra tudo e contra todos. Contra o sistema, contra os políticos, contra a Polícia Militar, contra o pai e contra a mãe. Tudo isso movido pelo idealismo, que muitas vezes se desgasta com o passar do tempo.

O meu tempo na torcida acabou pouco depois de começar. Um ano e alguns sustos serviram para entender que ali não era o meu lugar. Torcida organizada é lugar pra gente com personalidade forte. Sustentar um ideal por anos é coisa pra gente grande. Aos 18 eu era muito pequeno.

Tudo o que contei até aqui me dá base para ilustrar o que penso sobre o assassinato de Moacir Bianchi, fundador da Mancha Verde. Alguém que sustenta um ideal por tanto tempo, seja ele qual for, nunca será alguém pequeno. Quando se fala no encerramento das atividades de uma entidade de 34 anos não falamos do fim de uma “facção criminosa”, como disseram alguns amigos meus. Falamos de meios muito maiores do que o fim. Falamos de livros escritos pela metade, manchados por quem perdeu ou nunca teve um ideal.

Hoje as torcidas organizadas estão distantes de suas origens. Talvez porque o futebol se distanciou do seu povo. Talvez porque o povo se distanciou das próprias virtudes. Somos o que somos por nossos ideais, e não pelo o que temos em nossas mãos. A nossa construção só será contínua enquanto os nossos sonhos resistirem. Afinal, viver é diferente de existir.

Sobre Pedro Cavalcanti

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