21 de janeiro de 2018
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O Nascimento de uma Nação estreia amanhã nos cinemas

Versão contemporânea do clássico promete ser ainda mais controversa

D.W Griffith, responsável pelo primeiro blockbuster da história com o filme Birth of a Nation (O Nascimento de uma Nação), de 1915, é considerado por muitos o inventor da linguagem cinematográfica. Porém, esta mesma produção é uma das mais explicitamente racistas de todos os tempos.

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Posters do original de 1915 e da nova versão respectivamente

O filme conta a história da guerra civil americana pela perspectiva sulista do país, que lutava contra o norte pelo direito de possuir escravos. Essa visão racista da época fica clara já na primeira frase, que colocava a culpa da guerra nos escravos africanos, trazidos para o país contra sua vontade: “O transporte do africano para a América plantou a primeira semente de desunião”. Quando o sul perde o combate, Griffith mostra os escravos de maneira estereotipada e maldosa, empurrando os brancos que estão andando pacificamente nas ruas, desrespeitando lugares públicos, usando violência para convencer os brancos a votarem nos candidatos do norte, ou ainda forçando mulheres brancas a serem suas namoradas (um possível eufemismo para estupro).

Neste ano, o diretor americano Nate Parker produziu uma releitura do polêmico filme de Griffith, colocando o original de ponta cabeça. Enquanto em 1915 são os homens brancos do sul que aguentam a humilhação para a união da nação, na versão de 2016 são os escravos e ex-escravos que contam sua parte da história.

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Uma das cenas mais icônicas do filme de Griffith mostra uma garota branca tentando fugir de um ex-escravo, até que ela acaba caindo em um precipício. A passagem mostra de forma sútil que a mulher preferia morrer a ser estuprada por um ex-escravo africano. Trata-se de um episódio importante, assim como a cena que mostra a organização racista conhecida como KKK (Ku Klux Klan) como heroica. Por outro lado, na releitura de 2016 feita por Nate Parker, uma africana é estuprada por brancos. 

Como o filme de 1915, o de Nate Parker promete ser um grande sucesso – foi comprado pela Fox Searchlight por 17.5 milhões de dólares depois de ter ganhado o importante festival de Sundance, um recorde para produções independentes. Porém, assim como o de Griffith, que gerou grandes polêmicas, protestos e motins no início do século XX, o de Parker já esta dando o que falar mesmo antes de sua estreia no cinema americano no dia 7 de outubro.

Com o sucesso entre a crítica e sua possível indicação ao Oscar, fatos da vida pessoal de Nate Parker começaram aparecer na Internet. Em 1999, ele e seu amigo Jean McGianni Celestin, roteirista do filme, foram acusados de estuprar uma estudante da universidade da Pennsylvania, onde também estudavam. Ela acusou Parker e Celestin de abusos psicológicos após ela ter denunciado o estupro. Enquanto Parker foi considerado inocente pelo júri, Celestin foi preso. Uma década depois, a estudante cometeu suicídio, aparentemente sem ter conseguido lidar com os problemas causados pelo acontecimento.

O diretor Nate Parker

Ao mesmo tempo em que Griffith queria elevar o cinema à estatura de arte, e de certa maneira, conseguiu isso, ele também dividiu opiniões. Já Parker gostaria que sua releitura fizesse os americanos confrontarem o passado, sendo que para ele essa é a única forma de curar os problemas raciais do presente. Apesar de ter sido aplaudido no Festival Internacional de Toronto, a versão atual do filme Birth of a Nation está dividindo os Estados Unidos. Muitos alegam que Nate é hipócrita por falar para todos olharem para o passado enquanto ele evita qualquer pergunta sobre o dele. Há também aqueles que não conseguem separar o artista de sua arte, como alguns membros do comitê do Oscar, que não querem nem assistir o filme – muito menos votar nele. Outros dizem que o filme tem que ter seu próprio mérito. Mas ainda, alguns afro-americanos estão discutindo se devem boicotar o filme.

Qualquer que seja o ponto de vista, o filme de 2016 aparenta criar tantos problemas como soluções, gerando polêmicas que podem ir além da qualidade e valor da produção. Por exemplo, muitos acusam Parker de ser homofóbico, tendo em vista que ele disse que não quer fazer filmes sobre gays para “preservar o homem negro”.

O filme de Griffith apareceu em 1915, ano em que o mundo se encontrava dividido pela Primeira Guerra Mundial e em que milhões de afrodescendentes começaram a migrar para o norte do país em busca de melhores condições de vida. O de Parker surge em 2016, ano em que problemas raciais e de discriminação estão em pauta, e no momento em que o mundo aparenta estar cada vez mais dividido.

O lançamento do filme no Brasil estava previsto para Janeiro de 2017, porém, devido às polêmicas, foi antecipado para Novembro desse ano.  Só resta aguardar para saber o que a releitura de Parker representará na historia do cinema e quais serão suas consequências em um tempo de tanta desunião.

danielbydlowski_01_media* Texto escrito por: Daniel Bydlowski é cineasta brasileiro com Master in fine Arts pela University of Southern of California e doutorando na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. É membro do Directors Guild of America. Trabalhou ao lado de grandes nomes da indústria cinematográfica como Mark Jonathan Harris e Marsha Kinder em projetos com temas sociais importantes. Atualmente, está produzindo Bullies, um curta que conta a história de um garoto que sofre bullying na escola e precisa enfrentar seus medos.

Sobre Cristiano Boti

Cristiano Boti
Filho da Leninha, pai da Belinha e do pequeno Sam, sãopaulino chato e baterista das bandas Lunatone e Gil Sant'Anna. Designer gráfico formado pela vida com pós-graduação nas ruas de São Paulo. Apreciador de boa música e de bons filmes. Fã de Jorge Ben, Beastie Boys, Tarantino e Chaplin.

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