20 de novembro de 2017
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Paul’s Boutique

Pauls BoutiEm 1986, após o lançamento de seu primeiro álbum de estúdio, Licensed to Ill que foi um grande fenômeno de vendas com os hits Fight for Your Right e No Sleep Till Brooklyn, se criou uma grande expectativa em torno dos Beastie Boys e no que eles fariam depois do grande sucesso inicial. Estava dando tudo certo para os 3 garotos de NY que resolveram deixar a cena hardcore na metade dos anos 80 para rimar em cima de bases de bandas clássicas de rock como Led Zeppelin e AC/DC, sob a batuta do produtor Rick Rubin.

Então, em 1988 eles decidem aceitar uma ótima proposta da gigante Capitol Records e deixam a gravadora Def Jam, que na época ainda não era um selo muito expressivo. Consequentemente pararam de trabalhar com Rick Rubin que era um produtor exclusivo da Def Jam e uma espécie de mentor dos Beasties.

A ideia da Capitol era repetir a fórmula do primeiro disco, mas MCA, Mike D e AdRock não estavam dispostos a seguir o caminho traçado pelos executivos da gravadora, o que provavelmente os transformaria numa espécie de New Kids On The Block ou Backstreet Boys.

O problema é que os Beasties estavam em outra vibe, estavam mais velhos, mais politizados e meio que de saco cheio de letras sobre festas, mulheres e curtição. Também não aguentavam mais fazer shows para um público de adolescentes histéricas (pra quem não sabe, eles abriram os shows da Madonna nos EUA durante a turnê “The Virgin Tour”). Então, resolveram pegar a verba da gravadora e se mudaram de Nova York para Los Angeles afim de respirar novos ares e buscar inspiração para o tão aguardado novo disco.

A Capitol sugeriu que a produção do álbum ficasse a cargo dos Dust Brothers, dupla de produtores que anos depois ficaria mais conhecida por produzir o disco Odelay do Beck e a trilha sonora do filme Clube da Luta.

Eis que em 25 de Julho de 1989 é lançado Paul´s Boutique com uma produção gráfica muito legal. Esse é o tipo de álbum que vale a pena ter o vinil só pela arte da capa que quando desdobrada forma essa imagem aí de baixo, no fim do post. A foto é de uma esquina em Manhattan o que mostra que, apesar dos caras estarem morando em LA, não esqueceriam suas origens. A placa aonde se lê Paul’s Boutique foi colocada na fachada especificamente para a sessão de fotos, na real a loja era a “Lee Sportwear”.

Ok, falamos da capa, mas e a respeito do som? Aonde estavam as levadas mais dançantes? E as festas? E as letras sobre besteirol? O disco não tinha nada disso, e foi difícil para as pessoas acompanharem a evolução do grupo na época, pois não era o que se esperava deles. Resultado: um fracasso de vendas e a Capitol por sua vez então, decidiu parar de promover o disco já que o retorno não chegava nem perto do que tinha acontecido no disco anterior.

Então por que falar desse álbum?

Na época da gravação, os Dust Brothers estavam desenvolvendo a técnica de inserir vários trechos de músicas diferentes em uma mesma track sem alterar o tempo do beat… hoje em dia, qualquer um pode fazer isso com aplicativos baixados da internet, mas em 1989 ainda não era muito comum usarem esse tipo de recurso. Os Beastie Boys gostaram e abusaram da ideia!

No total, 105 músicas foram sampleadas, sendo 24 utilizadas apenas na última faixa. Os samples de Paul’s Boutique foram utilizados sem permissão, o que só foi possível porque o disco foi produzido antes de o cantor e compositor irlandês Gilbert O’Sullivan processar o rapper americano Biz Markie, pelo uso de sample da música “Alone Again (Naturally)” sem autorização, no ano de 1992. Gilbert ganhou a causa, o que mudou para sempre a história do uso do sample na música… mas isso é uma outra (e longa) história.

Com o passar dos anos, o álbum ganhou reconhecimento e acabou se tornando “cult” entre críticos e DJs por ser altamente diversificado, tanto no som como nas letras. Pouquíssimos discos de rap (ou de qualquer outro estilo) são tão ricos em matéria de referências musicais. Eu mesmo, já conheci várias bandas e artistas que nunca tinha ouvido falar, somente lendo a lista de samples desse álbum, que considero uma espécie de enciclopédia musical.

Em 2009, ele foi relançado em vinil pela Grand Royal (selo próprio dos Beasties Boys) numa edição especial de 20 anos do seu primeiro lançamento.

Se você ficou curioso a respeito das 105 músicas sampleadas em Paul´s Boutique acesse: www.paulsboutique.info. Nesse site você vai encontrar a lista de todos os samples e de todas as referências citadas nas letras do álbum, tudo muito bem organizado.Paul's_Boutique_foldout

Sobre Cristiano Boti

Cristiano Boti
Filho da Leninha, pai da Belinha e do pequeno Sam, sãopaulino chato e baterista das bandas Lunatone e Gil Sant'Anna. Designer gráfico formado pela vida com pós-graduação nas ruas de São Paulo. Apreciador de boa música e de bons filmes. Fã de Jorge Ben, Beastie Boys, Tarantino e Chaplin.

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