18 de janeiro de 2018
Home | Política | Só um parênteses

Só um parênteses

cafejornal

Só um parênteses rápido, dum pensamento que me ocorreu agora: estava lendo hoje pela manhã o jornal, como faço costumeiramente aos finais de semana (quando tenho algum tempo livre depois de resolver a vida que fica parada no tempo), e percebi, como uma criança de 5 anos que ganha um brinquedo novo e fica deslumbrada, que um jornal é cheio de notícias. Mais do que isso, que ele cobra conhecimento para o ler.

Sim, cheio de notícias, e cobrador como um mestre, já parou para pensar nisso? Datas, frases complexas, situações inusitadas que não se conectam e tem ideias e conceitos diferentes, separados em cadernos diversos, cada qual com seu tema principal e subtemas, com seus colunistas e opiniões, com fotos, sem fotos, com gráficos. Informação, por demais. Até cansa pensar que num domingo de manhã, ao receber o encarte semanal do jornal, que é o mais grosso de todos, iremos parar a vida por mais um minuto para ler aquele grosso calhamaço de letras miúdas pretas escritas num papel levemente cinza que borra suas mãos. E o pior, não apenas isso, mas que tem conteúdos ali que não fazem sentido algum, ou não conversam com suas ideias e posições.

Pode até estar pensando e olhando para mim como se fosse algo óbvio que um jornal contém informações, mas você já parou pra pensar o quanto de informação oficialmente consegue absorver no dia a dia e quanto dela é útil à sua vida? Qual a sua relação com a leitura, de forma geral, e como ela reflete a sociedade de um país? Ora, ler é importante, escutamos isso o tempo todo. Mas por quê?

Não sei vocês, mas guardo forte sentimento em relação às leituras da época escolar. Adorava os livros de terror e aventura, sempre foram meus favoritos. Como líamos praticamente um livro por mês, posso ser considerado um leitor assíduo, pois desde então venho repetindo essa média. Mas isso não é uma realidade, nem unanimidade no país. Ler 12 livros por ano não é algo muito comum.

Para facilitar, vamos abrir um pouco o mundo da leitura. Considera-se leitor todo aquele que, nos últimos três meses, leu ao menos um livro. Porém, apenas 48% da população brasileira é considerada leitora, ou seja, apenas pouco mais de 90 milhões (de mais de 200mi) de brasileiros tocaram num livro. em 2015. Outro dado mais alarmante é que, em 2015, a média de livros lidos pelos brasileiros foi de 1,7 livros e estima-se que em 2014 a média de brasileiros que não leram livros foi de 70%. —– 70% —– isso mesmo que você leu. Isso nos põe muito abaixo de países hermanos, como o Chile e a Argentina, e terrivelmente abaixo de países desenvolvidos, como o Reino Unido, a França e a Alemanha. O motivo para não ler? Mais da metade diz que é falta de tempo.

Em relação às livrarias, o Brasil possui uma média de 1 livraria a cada 55.000 habitantes (de acordo com a ANL, Associação Nacional de Livrarias), enquanto a UNESCO recomenda que o mínimo seja 1 a cada 10.000 habitantes. Estamos bastante defasados nesse número. Se formos levar em consideração o quesito geográfico, temos um parecer pior. O Brasil conta com 3073 livrarias, enquanto possuímos 5570 municípios, dados do IBGE (desconsiderando distritos e subdistritos), levando a um parecer que apenas 56% dos municípios brasileiros possui uma livraria. – menos de 1/3 do país conta com acesso direto a compra de livros em sua cidade.

Em relação às bibliotecas públicas, temos dados um pouco melhores – mas ainda assim preocupantes. Temos, de acordo com o SNBP – Sistema Nacional de bibliotecas Públicas, 6102 bibliotecas públicas espalhadas pelo Brasil (em 2014), uma média de 1 a cada 33.000 habitantes. Esse número, quando distribuído geograficamente por estado, nos mostra que o Rio de Janeiro possui a pior média nacional, com 1 a cada 110.000 habitantes, enquanto o Tocantins possui a melhor média, de 1 a cada 10.000 habitantes. Isso, toda forma, ainda é preocupante, pois os dados da mesma pesquisa mostram que 76% dos brasileiros não frequentam bibliotecas. Em São Paulo, a média de empréstimos de livros é de 0,07 por pessoa ao ano. No Canadá, por exemplo, a média é de 12,24 livros por pessoa ao ano.

Alguns teóricos apontam que a história recente da educação pública no país é um dos responsáveis pela má formação em leitura do país – ainda não temos sequer 100 anos de educação pública. Diferente da europa, por exemplo, que possui uma cultura de educação pública e leitura que remonta a alguns séculos, coloca-se no Brasil que a passagem direta do semi-analfabetismo para o audiovisual prejudicou muito a educação letrada no país. Sem juízos de valor, também considera-se que o Brasil (assim como latinos) possui uma tradição oral muito forte, de contação de casos e estórias, com ditados populares, com gírias, com lendas. O popular passa pelo cordel, pelo repente, pelo contador. E a escola formal não soube se adaptar ao popular, ou não quis – fato é que Paulo Freire passou longe da experiência de pedagogia dessas escolas comuns, e ficou como um caso a ser estudado, como se fosse muito diferente do mundo real, quando na verdade aquele conjunto de aprendizados feitos com a cultura nordestina é que era o mundo real.

O tema é tão importante que a ONU, no lançamento das novas meta do milênio, considera a leitura e a educação como um dos grandes objetivos a serem conquistados pelo mundo até 2030. A leitura apoia o desenvolvimento cognitivo das pessoas, fazendo-a compreender melhor o mundo ao seu redor. E não estou falando que ler um livro do Harry Potter vai te ensinar a fazer magia, ou que livros de contos de fada te tornarão pessoas que buscam fadas. O crescimento cognitivo tem a ver com a resolução de problemas, com a capacidade criativa de imaginar e desenhar situações, e também com a identificação de discursos e ideias, mesmo quando estão implícitas. Ler nos ativa a pensar de uma forma diferente, e a enxergar o mundo de outra maneira. Ler evita que sejamos manipulados por discursos falaciosos, nos ajuda a compreender o outro quando em necessidade, e nos expande a capacidade de ver o mundo, nos dando a oportunidade almejar novas realidades as quais hoje podem ser apenas um sonho – mas que no futuro podem ser o nosso presente.

Pois bem, fechando aqui o parênteses, essa coisa de pensar que vem quando você se depara com muita informação. Vou voltar a ler aqui o meu jornal. Não esquece de ler o seu também.

Sobre Ariel Macena

Ariel Macena
Um arquiteto que fugiu dos prédios e entrou nos projetos de política pública. Estuda isso o tempo todo, lê um pouco mais, e passa boa parte do tempo divagando sobre a validade do contrato social atual. É consultor em políticas públicas e recentemente começou um canal no youtube, "Dicionário de Politiquês", pra falar sobre conceitos básicos de política pra ninguém passar vergonha na sua rede azul favorita.

Check Also

Recesso

A política por aqui tem estado melhor que seriado. Cheio de reviravoltas, com uma trama ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *