25 de novembro de 2017
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Vancouver: uma “Torre de Babel” democrática.

Downtown, Vancouver Foto: Adriane Pasa
Downtown, Vancouver Foto: Adriane Pasa

A Torre de Babel aparece na Bíblia Sagrada no livro de Gênesis, foi uma torre construída pelos descendentes de Noé, após o dilúvio. Babel, em hebraico, significa confusão. Um dia, Deus desceu pra dar uma olhadinha na construção e não gostou nadinha do que viu porque eles não estavam executando a coisa de acordo com o briefing e também estavam se desentendendo um pouco então ele criou várias línguas diferentes para todo mundo. Que beleza, né? Não fosse isso a gente falaria todo mundo a mesma língua e agora eu não estaria precisando frequentar aulas de inglês para imigrantes e com certeza o mundo seria menos confuso.
Mas tudo bem, o aprendizado de línguas movimenta a indústria da educação e é uma parte importante da economia mundial. Tem gente que adora línguas e tem facilidade para aprendê-las, eu infelizmente não, mas estou me esforçando. Acho que o povo de Babel deveria ter pedido uma reunião com Deus e tentado argumentar, mas agora é tarde.

Vancouver, a quarta maior cidade do mundo em residentes estrangeiros. Toronto é a terceira.
Vancouver, a quarta maior cidade do mundo em residentes estrangeiros. Toronto é a terceira.

Vancouver é uma cidade muito louca neste aspecto. Quase metade da população é estrangeira. Recentemente foi divulgada uma pesquisa que diz que na província de British Columbia (onde fica Vancouver) em primeiro lugar a maioria dos imigrantes é chinesa, seguida de indianos, filipinos, iranianos e alguns países de língua inglesa. E tem uma comunidade de brasileiros também (variando entre 1.500 e 2.000 pessoas). Para vocês terem uma ideia, é a quarta maior cidade do mundo em número de residentes estrangeiros. Tem também árabes, turcos, poloneses, coreanos, ucranianos, russos, chilenos, colombianos, mexicanos, venezuelanos, japoneses, tailandeses, tem gente até de países que eu nem sei onde ficam. Então, nas ruas, é uma verdadeira Torre de Babel mesmo. Fora a língua francesa que ouvimos bastante também, dos canadenses de Quebec que aparecem por aqui e é a segunda língua oficial do Canadá. Claro, a língua oficial de British Columbia é o inglês, mas a gente ouve todas as línguas do mundo dentro de um ônibus ou na fila do supermercado, por exemplo. E o mandarim, que os chineses falam entre eles e tem até revistas e jornais nessa língua. Tem bairros que a gente só vê placas em chinês e muitos anúncios são em inglês e em chinês. Há quem diga que aqui é a China.

Granville Island Public Market, Vancouver. Foto: Adriane Pasa
Granville Island Public Market, Vancouver. Foto: Adriane Pasa

Isso tudo faz com que a gastronomia por aqui seja bem diversificada também e as pessoas podem tomar café da manhã num Starbucks ou num fast food típico americano, almoçar num restaurante tailandês e jantar num sushi bar (que tem aos montes, nunca vi gente pra gostar tanto de sushi!). Ou almoçar num restaurante mexicano e jantar num chinês. A comida aqui nem de perto é como no Brasil, os canadenses, na minha opinião, não sabem o que é “sabor de verdade” pois nada tem muito sal ou gosto de comida caseira, mas pelo menos tem bastante opções e para todos os bolsos. Os melhores e que mais agradam o paladar brasileiro talvez sejam os gregos, árabes, persas e mexicanos. Tempero bom e cheios de especiarias, são povos que sabem cozinhar muito bem. E tem os mercadinhos de tudo o que é coisa que se pode imaginar e também o grande mercado público que fica em Granville Island. Sem falar no bairro de Chinatown, que é muito interessante. Por conta de tanto estrangeiro, as grandes redes de supermercados também vendem de tudo, você entra em alguns deles e encontra até pó de trufa púrpura do Mar Adriático. Ôrganico, é claro, porque aqui tudo é saudável (ou pelo menos parece).
Frequento aulas de inglês para imigrantes em um dos serviços do governo, agora já estou quase no fim do curso, pois estou aqui há nove meses. Na minha sala tem dois japoneses, um venezuelano, um chileno, uma outra brasileira, um casal de portugueses, uma húngara, uma russa e quatro iranianos. Até outro dia tinha uma aluna de Camarões, vejam só. É muito bacana conviver com pessoas de outras culturas e muito curioso também. A gente não imagina o quão diferente algumas coisas são e hábitos que são “normais” pra gente são impensáveis para eles e vice-versa.

Todo dia alguém compartilha uma coisa nova sobre algum aspecto e a gente dá muita risada. Por exemplo, a professora um dia falava sobre a importância do contato visual no trabalho, em entrevistas de emprego, etc. Aí uma japonesa falou “no meu país é estranho olhar para os olhos das pessoas”. Ela contou que por conta disso no começo ela olhava só para a boca das pessoas e isso acabou contribuindo para que ela aprendesse melhor o inglês, porque lendo os lábios conseguia entender várias palavras, uma vez que o listening ainda não estava muito afiado. Eu passei a fazer isso também, ajuda bastante. Mas às vezes você pode ser mal interpretado.
Tem muita coisa diferente e curiosa num lugar cosmopolita. Eu adoro. Isso sem falar na vestimenta, “profusão de odores” (se é que vocês me entendem) e hábitos diferentes que se vê no dia a dia. O canadense é realmente um povo que tem bastante paciência e tem também um bom método para lidar com tudo isso. De alguma maneira todo mundo vive numa ordem e entra na cultura pacífica e democrática do Canadá. Não deve ser fácil organizar a coisa e fazer com que todo mundo respeite suas leis e jeito de ser. Talvez por isso os processos de imigração são tão rígidos e demorados e eles mudem algumas regras de vez em quando. Afinal, quando alguém vai morar na sua casa pode ser bem-vindo, mas a casa é sua, certo?
Uma das coisas mais legais de Vancouver é que ninguém te recrimina ou faz cara feia se você não tem um inglês bom ou não entende alguma coisa, com raras exceções. Por outro lado, isso não ajuda muito na prática do inglês, porque toda vez que você demora para falar alguma coisa as pessoas te ajudam e terminam de completar a frase para você. No fundo, deve ser um saco, mas em geral o povo é super gentil e paciente com quem ainda está “engasgando” no idioma.
Aqui todo mundo é estrangeiro, então a gente não se sente só nesse sentido. Quando todo mundo é diferente, ninguém é diferente. A forma de ver as pessoas e o cotidiano muda bastante. Imagine, desde a hora que a gente entra no elevador do nosso prédio, dentro do metrô, na fila do banco, no supermercado, na escola até o trabalho a gente convive com gente do mundo todo.

Corredor do andar do prédio onde moro, em Vancouver.
Corredor do andar do prédio onde moro, em Vancouver.

O tiozinho da barraquinha de cachorro-quente aqui na praia perto da minha casa é do Afeganistão. Muitos dos meus colegas de trabalho são filipinos, indianos, ucranianos ou filhos de imigrantes. Meu chefe é canadense. Minha vizinha de porta é alemã que namora um brasileiro de Londrina, vejam só. E tenho também uma vizinha de Curitiba (que, claro, nunca nos vemos), um do Recife outro do Rio de Janeiro e por aí vai.
Aliás, o meu prédio é uma espécie de “Edifício Master” aqui de Vancouver (guardadas as devidas proporções, é claro). Em breve vou fazer alguns vídeos com o pessoal daqui, pois agora tenho um canal no Youtube, o “BFF Canadá”, onde falo de minhas experiências em Vancouver e minha amiga Cínthia, fala sobre Toronto. O corredor do meu prédio é meio assustador, parece que a qualquer momento vão aparecer aquelas menininhas do filme “O Iluminado”, de Kubrick. Ainda bem que o isolamento acústico é ótimo, não dá pra ouvir quase nada, salvo quando meu vizinho do apartamento ao lado resolve levar umas namoradinhas para passar a noite com ele, cada uma de uma nacionalidade, claro. Esses dias acordei de madrugada com o barulho. Meu marido acha que ele estava vendo filme pornô, eu acho que era de verdade mesmo.
Então, em Vancouver é muita gente, muita diversidade. Aliás, quem não sabe ou não gosta de lidar com isso, melhor nem vir para cá. Aqui, além do inglês, tem uma língua que todo mundo fala ou aprende a falar: a tolerância.

Abraços, hugs, 擁抱,

Adriane

Sobre Adriane Pasa

Adriane Pasa
Artista visual e profissional de comunicação. Sempre fazendo mil coisas ao mesmo tempo mas nenhuma deu dinheiro até agora. Mora em Vancouver no Canadá. Gosta de observar tudo à sua volta e não consegue largar a câmera fotográfica. Tem um canal no Youtube chamado "BFF Canadá". Prefere pessoas que não se levam muito a sério.

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