25 de novembro de 2017
Home | COMPORTAMENTO | Educação | WhatsApp e Escola: uma arena?

WhatsApp e Escola: uma arena?

Deixa que diga, que pensem, que falem… aparelhos de convergência estão aí e mudaram a vida de todo mundo. Em todas as salas de aula, há smartphones. E por meio deles, coisas maravilhosas podem ser feitas. Aliás, muitos professores têm aproveitado essa “extensão” de si e de seus alunos para desenvolver projetos ótimos. De forma que, essa tecnologia móvel é uma inovação que pede inclusão na escola e não sua suspensão. A escola, como eu já comentei anteriormente, não pode ser um local de senso-comum. Tem de ser um local de bom senso. Por que não aproveitar todas as riquezas que a internet, aplicativos e telas podem nos oferecer?

A questão é que, como tudo na vida, o uso “mal feito” desses dispositivos e seus complementos podem trazer grandes prejuízos. E não estou me direcionando aos alunos. Estou voltando-me para as famílias. O fato dos smartphones estarem nas escolas é apenas um reflexo do que acontece no mundo, afinal, a escola é um espaço público para seus alunos: conviverem, aprenderem, ensinarem, refletirem. Agora, o que acontece quando a tecnologia está além dos portões da escola?

Todo mundo já ouviu falar nos ditos “grupos de pais de whatsapp”. E que podem se tornar o maior inferno das escolas, seus gestores e seus atores. Num mundo ideal, esses grupos serviriam às famílias, junto com as escolas, para esclarecer dúvidas ou obter informações. Coisas aliás, que poderiam ser resolvidas com um telefonema para a escola. Na verdade, percebo que as pessoas, mais e mais, parecem refutar o contato pessoa a pessoa, mesmo que seja por um telefonema. Mensagem é mais rápido? Claro que sim. Porém, determinadas coisas podem ser imediatamente resolvidas com uma conversa por telefone – ou pessoalmente.

IMG_0623

Assim, os “grupos” de whatsapp tornaram-se uma arena. Penso que são a versão modernosa do próprio portão da escola. Há algum tempo, as famílias se encontravam ali para trocar ideias, reclamar, elogiar e a coisa toda. De uma certa forma, a coisa era um tanto mais transparente, pois as pessoas estavam frente a frente e isso muda um pouco o jogo. Pelas telas de celular, talvez pela segurança do local onde estão e por não encontrarem os olhos dos outros participantes, as discussões tendem a ficar acaloradas e, o pior, confusas.

Se pesquisarmos, encontraremos textos de pais e escolas falando de suas experiências com esses grupos. Gestores, coordenadores e diretores ficam de cabelo em pé e já vi exemplos de tentar evitar encontros entre os pais para que os telefones não se troquem e novos participantes se acrescentem aos grupos. É uma atitude inócua. Se não se encontrarem na escola, em quantas outras situações sociais pais de alunos não se encontram e podem trocar telefones? Mais que isso, é vital que os pais estejam dentro da escola para poderem perceber como é adequado e o que é adequado ser e estar dentro de um ambiente acadêmico que é a escola – seja qual modalidade ela trabalhar.

Por outro lado, vemos relatos de famílias que contam como os grupos podem ser palco de ostentações ou disputas: quem sai mais com os filhos, quem vai a lugares mais bacanas, quem está mais integrado na vida dos filhos? Ou ainda, e o que mais me preocupa: quantos conflitos não nascem em grupos de whatsapp? Uma dúvida genuína de uma família pode tornar-se ponto de discussão e de discórdia entre famílias que, podem escolher ou não fazer parte da vida umas das outras, gerando mal-estar, mal-entendidos e situações constrangedoras.

Em tempo, acontece um fenômeno muito curioso que perpassa todas as redes sociais: as discussões infrutíferas sobre o que se concorda ou não sobre os fazeres da escola. Primeiro de tudo, é importante sempre ter em mente: por que foi que escolhi esta escola para meus filhos? A ideia é que os valores e práticas da escola e da família sejam convergentes. Elas nunca serão iguais, afinal de contas, as propostas e os papeis são completamente diferentes, no entanto, são complementares. A escola educa para o público e para o acadêmico. A família para o privado e para os valores. Assim, é muito possível que fazeres, de um lado ou de outro, não sejam exatamente os mesmos, mas que precisam de ressonância entre si. Novamente, se uma escola foi escolhida por uma família é porque ela confia no serviço que a instituição presta. Ainda, não podemos nos esquecer que, se os filhos estão em uma escola é porque ela faz algo que a família não pode fazer – como funciona para qualquer serviço contratado. De forma que a escola não cabe em “eu estou pagando e tem de ser como eu quero”. Não. A escola pode ter atitudes das quais discordamos e a melhor forma de resolver essas questões é compartilhando e compreendendo. E como se faz isso: via diálogo. Ou seja: indo à escola e tendo um encontro honesto de troca e entendimento das situações. Ter essas discussões por grupos virtuais dos quais todos os participantes da vida escolar não estão presentes leva apenas a uma retroalimentação de dúvidas, suposições e entendimentos que não necessariamente fazem parte da realidade de todas ou de uma família em particular.

Por fim, participar da escola, da vida escolar dos filhos é estar presente, literalmente. Ir à escola e compreender o que acontece por meio da troca entre pessoas reais. Os balões de diálogo ou mesmo a troca de áudios são recortes de uma realidade. A totalidade dela só pode ser dada pela presença na comunidade escolar.

Se desejamos que nossos filhos sejam, de fato, pessoas capazes de pensar e refletir, por que nós não fazemos o mesmo e pensamos sobre o que está populando os nossos grupos de whatsapp?

Tathy

Sobre Tathy Morselli

Tathy Morselli
Tathy é professora, escritora e tradutora. Estudou Pedagogia e fez pós-graduação em Estudos Literários. Tem uma biblioteca razoável, um Kindle debaixo do braço e sempre uma câmera na mão. Acredita que desassossegar as pessoas leva a visões e pensamentos mais profundos sobre o mundo que nos cerca.

Check Also

E se todas as escolas públicas fossem modelo?

Depois de um longo e tenebroso inverno neste espaço, resolvi voltar com um texto que ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *